sábado, 7 de novembro de 2009

Postagem do Intervalo






Veja publicidade da Chanel com o poema Day Dream, de Frederico Barbosa. O poema foi utilizado sem conhecimento do autor.

A campanha publicitária mundial do perfume Coco Mademoiselle ,da Coco Chanel, traz trechos de um poema recitado inteiramente em português. Os curiosos irão descobrir que, embora não apresente autoria na campanha, trata-se de fragmento grande do poema "Day Dream" do poeta Frederico Barbosa, diretor da Casa das Rosas e diretor executivo da Poiesis, organização social que administra o Museu da Língua Portuguesa e a Biblioteca de São Paulo.

O texto foi publicado originalmente no livro "Nada Feito Nada", de 1993, que foi agraciado com o Prêmio Jabuti.O autor desconhecia completamente o uso do poema, que é dedicado ao seu grande amigo, o músico e artista plástico Carlos Fernando. Segue o poema:

DAY DREAM
Esse castelo
o que há de antigo
nosso no ar
vai se construindo
em meio improvável
desatento.
Tantas referências
nossas lentes
fora desse mundo
do vago ralo
da rapidez indiferente.
Nesse nosso castelo
vão circulando, vivos,
tantos Dukes, Claudes, Luchinos
e vários James amigos
nossos companheiros de sempre.
Sonhos aprisionados
nessa torre
ilha
correm soltos
mar de marfim
por dentro.
Dedicar cada dia
entre tantos
inúteis momentos
a refinar
cada gesto palavra cor
ou sentimento.
Nadar no vazio alheio
movidos
por nosso sonho
claro e tácido
acordar comovido
da mente em movimento.
Nesse castelo, nossa praia
essa coragem nossa
sua presença acende.
Um mundo raro
um sonho em claro
doce recheio
sem resposta.
Sonhamos
vida
sempre acordados
um sonho contrário
que se arrasta em brilho
contra a corrente.

Frederico Barbosa in Nada Feito Nada, 1993

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

10/10 -Sexto e último encontro de 2009

Por Nedilson

Encerrou-se no último sábado, 10/10, o derradeiro módulo do projeto Escrevivendo na Casa das Rosas neste ano de 2009. Embora não tenha sido possível contar com a presença fundamental da nossa mediadora Karen Kipnis, o encontro foi, novamente, uma boa oportunidade para se conversar sobre a escrita, de maneira mais ampla, e sobre o fazer artístico e literário, mais especificamente. A partir da leitura de alguns versos de João Cabral de Mello Neto (“Tecendo a manhã” e “A mulher e a casa”), foram retomadas questões sobre o valor e importância da literatura num mundo marcado pelo signo da globalização, a estereotipização das linguagens artísticas a fim de contemplar interesses mercadológicos e as resistências elaboradas e postas em prática pelos artistas.

Outro assunto abordado no encontro nasceu do questionamento de um dos participantes sobre o significado mais amplo que estaria por trás da história de Bentinho e Capitu, no “Dom Casmurro”. O momento foi oportuno para inserir e discutir algumas questões sobre a constituição de alguns personagens e a função de cada um deles no panorama social da época, questões que relacionadas à trama podem abrir outras perspectivas de entendimento da obra.

No final, houve uma agradável confraternização, que se aproveitou do espírito de Dia das Crianças, com refrigerante, bolos e doces. Espero que nos próximos módulos do projeto possamos contar com a gratificante participação de todos esses que estiveram presentes nos encontros desses últimos meses, além de contar com a presença de novos participantes.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

OBRIGADA NEDILSON!!!

... por ter acolhido o Projeto Escrevivendo e acreditado nele. Tenha certeza de que será também sempre acolhido neste pedacinho da Paulista e onde quer que as oficinas aconteçam!

Karen

Copiei e colei do 'blogbruna'



Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

CARTA A UMA AMIGA

Querida Karen,
hoje me dei conta de que faz pouco mais de um ano que recebi de presente, de você, o meu blog! E que desde então, já estão lá quase sessenta títulos. Quanto devo a você?
Muuuuuuito, quase tudo. E porquê não tudo?

Por que me aventurei em outras oficinas, obedeci outros raciocínios, quis apanhar com outras críticas, e outros críticos. É como se, inconscientemente, eu estivesse grudando em mi mesma, com cera virgem e à moda de Ícaro, asas de pássaros inauditos, diferentes, vindos de outros continentes.

Se soubesse cantar, eu diria que seria uma vocalista que larga a banda, de quem muito aprendeu , para lançar-se em carreira solo. Mas não é bem assim: ainda tenho um longo caminho a percorrer, antes de me sentir segura para conversar sozinha e sozinha aprovar minha assinatura.

Mas sei que você acompanha meus textos e estou certa de que, mesmo em momentos de crítica atroz, você saberá ouvir minha voz, como agora.
Portanto, obrigada.

Postado por Blog da Bruna às 13:07 2 comentários

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Comentário sobre a aula de 03/10- Sexto encontro

Por Nedilson

O encontro do projeto Escrevivendo no último sábado, 05/10, foi dedicado à leitura de dois poemas de Carlos Drummond de Andrade e de um conto de Guimarães Rosa. Embora a quantidade de textos tenha sido reduzida, ela foi suficiente para suscitar intervenções inteligentes e variadas dos participantes do encontro.

De fato, foi empolgante perceber o quanto um poema como o “No meio do caminho”, composto há mais de 90 anos, ainda causa espanto e instiga a sensibilidade do leitor mais atento, mesmo daquele que já possui conhecimento sobre o texto.

Com a leitura do poema “Áporo”, partiu-se da estaca zero no nível de entendimento dos versos para a consciência plena das possibilidades de significação deles num crescendo gradativo que premia o leitor com a imagem de uma metamorfose inusitada e maravilhosa.

No contato com a narrativa “Fita-verde no cabelo” adentramos no mundo das personagens infantis roseanas a partir da re-elaboração da fábula de Chapeuzinho Vermelho, numa sempre fértil experiência lingüística e criativa que nos proporciona o genial escritor de “Sagarana”.

O bate-papo sobre os três textos foi uma boa oportunidade para relacionar, de maneira prática, alguns dos temas que têm estado presente nas nossas discussões de sábado, como gênero e forma, além de ter ensejado algumas observações peculiares aos textos lidos, como as características de ritmo, sonoridade, contexto histórico e estético. Ao final, a sensação parece ter sido de alegria e gratidão por podermos contar, em nossa língua, com expressões poéticas de tão alto nível.

Se o verbo LER, etimologicamente, está ligado ao ato de colher, pode-se afirmar sem dúvidas que o nosso encontro de sábado primou pela fartura da colheita.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

26/10-Palestra sobre o Projeto Escrevivendo: uma experiência democrática de 'saber ser' e 'saber fazer junto' em espaços públicos culturais

Olá! Dia 26 de setembro teremos, no lugar de mais um encontro da oficina, uma palestra voltada a educadores, bibliotecários e público em geral. O evento está inserido na programação Semana da Primavera nos Museus.

Participações especiais: Gabriela Rodella e Nedilson César

Aproveito o espaço para postar o depoimento da incrível escrevivente Fabiana Turci!


DE COMO VIVER JUNTO
Fabiana Turci


Há uma formulação em Borges de que o livro, se não for aberto, não passa de um bloco de couro, costurado em páginas insignificantes. Ele diz que, no entanto, acontece uma coisa mágica quando o abrimos: o livro se modifica a cada instante. Em cada leitura, resignificamos, não apenas as palavras, mas o mundo a nossa volta e o mundo dentro de nós. Ler é uma atividade permeada de desejos. Do desejo de escrita ao desejo do encontro, a leitura nos coloca em contato com o vivo do mundo e, diante deste convite, vem, inevitável: a falta de espaço, de diálogo, o mundo comprimido, fragmentado, administrado, com o qual as palavras se debatem e nos desafiam – a constituir um espaço respirável, a ocupar a porção que nos cabe e incutir, no fluxo da vida, o do nosso próprio sentir.

Este é um relato pessoal. De como passar da solidão do verso para o aprendizado do viver junto. Como qualquer relato, este carrega as minúcias e desvios próprios da caminhada subjetiva. Mas isso não o torna menos válido, nem mais concreto. Talvez a verdade da palavra do relato seja a de que ele poderia servir a qualquer um e a ninguém, ao mesmo tempo em que ocupa um lugar. E é desde este lugar – muito menos testemunho, testemunha do que presentificação e ocupação de um Espaço, já meu – que gostaria de dirigir esta fala.

Conheci alguns caminhos de e para as letras. Um, mais óbvio, dentro de minha própria casa – que se não cumpre o ideal das casas burguesas com suas vastas bibliotecas, tem sempre silêncio e papel. Quando se vive assim, fazendo amor com as palavras, natural é que se carregue, ao cruzar a porta, essa paixão. Assim é que, vezenquando, o Outro nos aparece e nos cruza, com seu amor e com suas palavras – o primeiro e sempre caro encontro. Fui procurar, também, fazer da paixão trabalho, o que se deu no meu ingresso nos cursos de Letras e Filosofia. Não seria exatamente justo dizer que, nesses três caminhos, não encontrei o que procurava. Cada espaço nos dá e nos exige o que lhe é próprio, mas as palavras ocupam tudo, sem distinções. Se a casa, como lugar da intimidade, permite a liberdade da escolha – de abrir e fechar os livros em função somente da quantidade de prazer, de estender o tempo em direção ao lápis e fazer da poesia relógio – a Academia, como instituição, nos obriga a aceitar as escolhas de outrens e de fazer dessas escolhas ferramenta, instrumento. A casa, por outro lado, nos impõe a solidão de paredes brancas, muitas vezes insuportáveis, onde falta exatamente o Outro, com os desafios, os universos, os olhos perguntantes... Seria justo dizer que cheguei até a Casa das Rosas não por uma ausência de fundamento, mas por outro tipo de falta, fundamental: de escuta e de conversa.

Digo, também com justiça, que resignifiquei as manhãs de sábado, a Avenida Paulista, tão austera, e minhas próprias palavras. Encontrei um espaço pautado no afeto e na escuta, onde as propostas – estimulantes, inovadoras, desafiadoras – geravam textos que transformavam não apenas o nosso pequeno espaço, mas eram catalisadores de mudanças profundas, íntimas, indizíveis. Se o Escrevivendo cumpre o necessário propósito de instrumentalizar e embasar a leitura e a escrita, tornando seus “alunos” mais críticos e mais responsáveis por sua atuação no mundo, acredito que cumpra algo que não se dá como uma finalidade expressa, mas que acaba por ser sua conseqüência necessária: o escrevivendo devolve, de muitas formas, a inteirez da gente.

Como relato, digo que encontrei, nesse espaço como em nenhum outro, ouvidos atentos e exigentes, muita generosidade e uma quantidade infinda de centelhas. Mas sou obrigada a relatar, também, aquilo que vi: um espaço que personifica meu ideal de democracia, espaço heterogêneo cujo potencial de transformação, em muitos sentidos, representa a essência mesma daquilo que gostaríamos de ter como educação. Algo que ultrapassa as fronteiras de conteúdos, de ideologias, e nos torna, profundamente, quem a gente é.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

19/09 - Quinto encontro

Hoje pude ler e comentar(ao mesmo tempo), observando coesão, coerência, clareza, e gramática, algumas produções como exemplo de olhar crítico a ser treinado para comentários sobre textos de colegas no decorrer da oficina.

Ainda que concordemos que a escrita responda a uma função social e que seja fruto de motivação(caso contrário ela passa a ser apenas demonstração de conhecimentos técnicos e gramaticais), ficou claro que, justamente quando estamos motivados, acabamos, muitas vezes, escrevendo da forma que pensamos ou falamos! Neste caso, devemos redobrar a atenção e os cuidados na releitura e na reescrita de nossos textos.

Assim, passamos às trocas de produções (em duplas) " Que leitor sou eu". Adoro este burburinho!

Segundo Lucília Garcez, em A Escrita e o Outro,

" Na atividade de releitura, os participantes do evento, em graus e perspectivas diferentes, exercem um esforço em busca da compreensão responsiva ativa de que fala Bakhtin*. Para isto, alternam suas perspectivas de leitura. O comentarista tenta colocar-se no lugar do produtor para compreender suas intenções e propósitos, e o produtor do texto procura relê-lo, colocando-se numa outra posição, a de interlocutor de seu próprio discurso...É nesse exercício que ambos aprofundam seu conhecimento sobre o funcionamento do texto e sobre os aspectos que devem levar em consideração no processo enunciativo ou interpretativo"

* consultar marcador 'bibliografia'